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O essencial das férias

Um guia completo para o turista sustentável. 8 dicas para aproveitar antes, durante e depois da viagem

Márcia Bindo e Danilo Fantinel

Como chegar

De avião, ônibus, carro, trem ou jangada, lembre-se: assim que você coloca os pés no destino, já está interagindo com o meio ambiente e a cultura do lugar. Pois chegue com calma, com tempo, com humildade. Se você sai de férias acelerado, com uma expectativa grande, pronto: já leva o estresse na bagagem. O turista contemporâneo, na ânsia de aproveitar até a última gota a sua viagem, transforma a experiência num produto de consumo, diz o professor João Alievi, do curso de turismo sustentável do Senac, de São Paulo. Multiplique esse comportamento aos montes e a conseqüência é o esgotamento dos recursos naturais e a descaracterização do patrimônio cultural e social. Quando um destino começa a perder seus encantos por causa do turismo massificado, você já sabe o fim da história: é abandonado pelos viajantes, em busca de um novo paraíso.

A idéia de turismo sustentável surgiu junto aos movimentos ambientalistas da década de 80 para assegurar que os lugares turísticos não perdessem sua identidade e tivessem seu ambiente natural preservado. Hoje cerca de 20% dos turistas no mundo se preocupam em viajar de maneira mais sustentável. E esse número, para o bem do planeta, aumenta, diz João. Este guia é para você aproveitar sua viagem com a consciência de que o turismo pode beneficiar a todos: viajantes, comunidades locais e meio ambiente.

Onde ficar

Em hotéis e pousadas integrados com o ambiente natural ao redor e que respeitem a arquitetura local. Em meados de 2007, hotéis, pousadas e resorts serão certificados de acordo com sua conduta pelo Instituto de Hospitalidade, ONG que trabalha em projetos de desenvolvimento do turismo sustentável. Até lá você também pode levar algumas questões em consideração na hora de escolher sua hospedagem. Cheque se ela não mantém animais em cativeiro, se faz reciclagem do lixo, se economiza água, se usa energia mais limpa (como a energia solar) e se tem algum programa de preservação da flora e fauna da região, diz Wagner Fernandes, gestor do processo de certificação do Instituto de Hospitalidade. Um bom exemplo é a associação de pousadas Roteiros de Charme, que só aceita estabelecimentos que respeitem um código de ética e de conduta ambiental.

Procure hospedagens que usem guias, serviços e produtos locais. O projeto carioca Cama e Café, por exemplo, capacita moradores do charmoso bairro de Santa Teresa a transformar suas casas em albergues, com café da manhã. Esse estilo de hospedagem, bastante desenvolvido na Europa (lá conhecido como bed and breakfast), promove a interação entre o turista e o morador e, diferentemente do que acontece em grandes empreendimentos hoteleiros, o dinheiro vai direto para as mãos da comunidade local.

O que ver

O que existe de melhor para ser visto e apreciado: a programação cultural típica do lugar. Entre uma discoteca que toca músicas que você ouve nas baladas da sua cidade ou aquela apresentação de um grupo regional de sanfonas, fique com os sanfoneiros. Primeiro porque você estará estimulando a produção artística da cidade e segundo porque só assim você vai conhecer manifestações autênticas. Um dos projetos pelo Brasil que recupera a cultura local é o Diamantina Sempre Viva, que deu novo fôlego à histórica cidade de Minas Gerais. Entre os programas organizados há o cortejo religioso de dança e música Caminho de Todos os Santos, o projeto Tropeiros, dedicado ao folclore dos boiadeiros, e o Serestar, reunindo grupos de seresteiros que dão vida ao cancioneiro popular. Neles, moradores antes sem perspectivas agora se reúnem para discutir sua cultura, oferecendo ao turista um roteiro artístico fiel às raízes locais.

Observe também os locais históricos e a natureza ao redor sem interferir de maneira predatória. Esse também é um princípio do ecoturismo, que incentiva viagens a ambientes naturais. Nada de levar na bolsa conchinhas, pedaços de ruínas ou objetos históricos como lembrança. Tire uma foto, compre um postal, leve o seu caderno de viagens para desenhos ou anotações.

Onde comer

Nos restaurantes tradicionais que servem a culinária regional. Dê um descanso para as redes de restaurantes internacionais e lanchonetes de fast food. Assim você exercita seu paladar com novos ingredientes e receitas inusitadas e ainda conhece um pouco mais sobre a gastronomia do local, que pode vir com um acompanhamento especial: atendimento mais caloroso, com sotaque e tempero da terra.

Você já deve ter notado que restaurantes, hospedagens e espetáculos estão se padronizando pelo mundo, principalmente em regiões turísticas. É o fenômeno dos não-lugares: aqueles locais que não têm personalidade, não têm singularidade e não refl etem a sua cultura. Podem estar em qualquer lugar: Sidney, Hong Kong ou Rio de Janeiro. Pois, na contramão desse movimento, muitos turistas buscam o que não é pasteurizado, o original, o diferente. Há 20 anos o turista tradicional escolhia a viagem pelo hotel e o conforto que ele proporcionava. As perguntas básicas eram se havia ar-condicionado, televisão e frigobar, diz o professor João Alievi. Hoje, o viajante consciente, ao invés de perguntar pelo trio elétrico, quer saber se o hotel está em harmonia com o lugar, se cuida da água que ele vai sujar, se faz reciclagem. Ah, e se prepara aquela comidinha especial, que só tem ali.

Boas compras

Valorize os produtos artesanais, feitos pelas comunidades. No artesanato são utilizados materiais da região e modos de fazer que representam a identidade de um povo. Atenção às lojinhas de suvenir que vendem tudo igual, como aquelas de restaurantes de beira de estrada, que costumam homogeneizar traços culturais distintos. Prefira o artista de rua ou o artesão que vende na feirinha. Procure se informar sobre a procedência do produto e a história dos artesãos. Melhor: faça uma visita até o local onde o artesanato é produzido, para ver de perto como ele é feito.

Existem vários movimentos pelo Brasil que incentivam a produção artesanal. O projeto Na Luz de Bonito, por exemplo, ampliou o foco turístico da cidade sul-mato-grossense, conhecida pelo ecoturismo, ao recuperar aspectos da cultura popular, como o trabalho em couro e a tecelagem, quase extintos. Os moradores reafirmaram sua identidade com o comércio, produção e venda proporcionadas pelo turismo sustentável. Na hora de comprar presentinhos para a família, evite produtos que tenham como matéria-prima espécies animais ameaçadas de extinção. Risque da lista objetos que foram retirados do meio ambiente de maneira prejudicial ao ecossistema, como conchas, pedras, corais. Com essa atitude, você não estará estimulando a coleta desses materiais.

Quando ir

Evite viajar para áreas populares durante a alta temporada e feriados, que costumam ficar abarrotadas. Dessa forma você estará produzindo menos impacto na natureza e terá mais chance de conhecer os costumes locais. Além do mais, fora de temporada é mais barato, você escapa das filas e visita os lugares, ufa!, com sossego.

Alguns turistas deixam para viajar apenas no verão. Você já parou para pensar que outras estações do ano podem ter diferentes belezas, novas festas e aspectos culturais de um lugar que você não veria no calor? Assim, você também foge dos grandes movimentos migratórios turísticos. Prefira operadoras de turismo que tenham programas de responsabilidade social. E, antes de fechar as malas, pesquise em livros, guias, revistas e internet o local que você escolheu para mudar de ares. Paraty, por exemplo, é muito mais do que uma cidade histórica com belas praias. Ali há comunidades caiçaras interessantes, de pescadores e quilombolas. Mar e sol você tem em muitos lugares do planeta, diz Mario Mantovani, diretor do SOS Mata Atlântica, que cuida do projeto Pólo Ecoturístico do Lagamar, no litoral sul de São Paulo. O projeto qualifica a comunidade para ter benefícios do turismo e capacita agências para trabalhar de maneira sustentável.

O que levar

Altas doses de curiosidade para viajar além dos cartões postais da cidade. Deixe-se enveredar por caminhos inesperados, que transcendam as atrações conhecidas e previsíveis. Entrar em contato com a alma do local que vai ser descoberto é a própria essência dos viajantes. Tome como exemplo o casal Fernando e Marília Naigeborin, que, mochila nas costas, estão peregrinando pelo mundo numa viagem com duração de oito meses (suas experiências e histórias saborosas estão no blog Volta ao Mundo, no site de VIDA SIMPLES). Dos grandes centros urbanos, como Londres e Viena, aos pequenos vilarejos da Itália e os mais remotos lugares da Tailândia, o que lhes interessa, além das paisagens, são as sensações que os lugares despertam, o contato com pessoas e realidades ímpares.

Portanto, leve também sua sensibilidade. Quanto mais você se dedicar a compreender os outros, mais compreenderá a si mesmo. Perceba que viajar nos transforma às vezes de modo mais superficial, às vezes de maneira mais profunda.

Imperdível

Não deixe para ver a realidade pelas janelas do carro, do táxi ou do ônibus. Por elas não passam as histórias, formas, sons e cheiros do lugar. Experimente vivenciar o cotidiano das comunidades locais. Ao caminhar por suas ruas, faça contato com os habitantes, puxe uma prosa com o vendedor do mercado, troque idéias com a dona da pousada, ouça dos antigos moradores causos sobre o povoado. Nada melhor do que o contato para conhecer e compreender melhor outras culturas. Sem ser invasivo e com respeito aos costumes locais.

Viajar, como escreveu Mark Twain no livro The Innocents Abroad (Os Inocentes no Exterior), é fatal para preconceitos, para o fanatismo e para as mentes estreitas. Mantenha-se livre de preconceitos para conhecer e aprender com outras realidades. Embarcar de férias dessa maneira tem algumas boas indicações: deixa o coração mais sensível, o espírito mais alegre e cria um círculo virtuoso contagioso. Boa viagem.

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