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Fim do embarque: 242 passageiros e mais a pesada carga a bordo. O navio Onze de Maio desatraca do porto de Manaus com seis horas de atraso. À meia-noite, o bar do piso superior fecha, a música brega finalmente dá uma trégua e todos se recolhem para dormir. Permaneço do lado de fora, ao lado de um alemão que acabo de conhecer, e tento digerir a imensidão ao meu redor. No horizonte, a cidade dá lugar à silhueta negra da floresta e na penumbra vê-se o rebrilho da lua no rio Solimões. A água bate ritmada no casco do navio. Arrepio. Esse lugar, que me parece tão estranhamente familiar, me ajuda a me reaproximar de mim mesma. Com certeza serão cinco dias inesquecíveis rumo a Belém do Pará.
Pela primeira vez na vida, coloquei a mochila nas costas e viajei sozinha. Foi uma troca do rito anual das férias com a família em alguma praia catarinense. A decisão de uma viagem diferente, mais aberta e inesperada, veio algum tempo antes. Quando contava aos amigos sobre minha vontade de conhecer a Amazônia, eles me perguntavam imediatamente: Mas por que lá? E eu rebatia: Por que não? Queria me entremear naquela paisagem inebriante de florestas rasgadas por caudalosos rios e afluentes. Além disso, uma voz interna sinalizava: vá sentir a vida!
Antes da partida, hospedada em um albergue descolado e cheio de gringos em Manaus, pensava em como seria meu convívio no barco, se choveria, se ventaria, se me sentiria enjoada. Mesmo apreensiva, desejava viver algo diferente do que conhecia em São Paulo. E, acima de tudo, queria simplicidade. Minha cabine era pequena, o banheiro, sujo, minha comida se restringia a macarrão, carne e feijão e o único espaço em que não se ouvia a ruidosa música brega era abarrotado de redes de outros viajantes. Em torno disso, a inteireza da natureza. E, com ela, a sensação de completude diante de qualquer adversidade.
O chamadoQuando estamos mergulhados no ritmo do trabalho e das obrigações diárias, dificilmente paramos para observar um pássaro, admirar a lua cheia ou ouvir o barulho da chuva. Deixamos de perceber as belezas ao nosso redor em função das preocupações. Por isso, afastar-se da rotina transforma-se numa maneira de alargar os horizontes e de estar disponível para outras sensações. Enfrentamos as frustrações geradas pelo automatismo da vida, mas, inconscientemente, sempre sentimos falta de algo, diz a psicóloga Regina Nanô, de São Paulo. Segundo ela, existem duas maneiras de o ser humano reagir a essa falta: ou ele se expande e se abre para novas impressões do mundo ou se oprime e se fecha para o novo, perdendo-se dentro de si. Superar os próprios limites nos auxilia a lidar com o dia-a-dia com mais com serenidade , diz Regina.
Com esse espírito, o alemão Michael Helleberger, um engenheiro quarentão que conheci na viagem de barco, decidiu ir para a selva amazônica. Lá tomou banho nos igarapés, aprendeu com os caboclos a caçar e a preparar sua própria comida e montou abrigos para dormir com madeira e folhas. Vi famílias com até 11 filhos bem-humoradas e morando em casas de 40 metros quadrados. Antes de reclamar de mais uma segunda-feira, lembro a imagem dos pescadores, sempre com um motivo para sorrir e erguer o polegar. Foi uma das viagens mais significativas de sua vida.
Viver, sem restriçõesPara o mitólogo Joseph Campbell, a jornada dá a possibilidade de fazer um mergulho na própria essência e de provar o abandono dos papéis sociais. Uma outra vantagem é livrar-se temporariamente do jugo da personalidade, da imagem que queremos mostrar ao mundo e que custa tanto sustentar. O resultado é o renascimento. A jornada é a saída do útero, o abandono da posição quadrúpede e a aprendizagem de como ficar em pé, diz Campbell no livro O Mito e o Corpo de Stanley Keleman. Cinema e literatura exploram profundamente esse aspecto. No filme Na Natureza Selvagem, por exemplo, um jovem deixa conforto, riqueza material e a própria família para se isolar no Alasca. Sua intenção é se compreender, afastado dos vínculos pessoais e sociais. Quando é questionado sobre o que se podia fazer de bom num lugar tão longínquo, ele diz: Você simplesmente vive.
Esse tipo de jornada mais aberta também aponta para nossa necessidade de renovação, e freqüentemente sinaliza fechamentos e inícios de ciclos. Quando você se joga no mundo, coisas meio mágicas acontecem, afirma Regina Nanô. Ao fim do processo, é possível acessar algo precioso e, ao retornar, dividir verdades e descobertas com as pessoas a seu redor.
De barco, bike ou a péCada meio de transporte, com suas peculiaridades, proporciona um equilíbrio diferente entre o prazer e a dor. E é importante manter a consciência de nossas reações às experiências que eles oferecem, diz o antropólogo lisboeta Manuel João Ramos, estudioso da literatura de viagens e professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Portugal.
Muitas pessoas levam esse desejo de consciência a sério. No livro Caminhando no Gelo, por exemplo, o cineasta alemão Werner Herzog, que andou a pé durante 20 dias de Munique, na Alemanha, a Paris, na França, descreve o quanto caminhar aguça o olhar. Tantos cães, de carro a gente não repara nisso, nem no cheiro das fogueiras, nem no gemido das árvores. Os troncos descascados transpiram, de novo minha sombra se alonga diante de mim.
Essa sensação de intimidade com o percurso também se manifesta nas viagens de bicicleta, que fazem o corpo sentir os desníveis do solo, a força nas pernas nas subidas, a adaptação às mudanças climáticas. Um dos principais desafios do designer Eduardo Green Short, de Florianópolis, foi enfrentar quatro dias de chuva intensa com mais três amigos nos 1200 quilômetros a caminho do Rio de Janeiro. Passamos por um desconforto físico muito grande, pedalando molhados e com frio. Mas, quando abriu o sol, foi maravilhoso, diz. Se você entra no clima, é recompensado até pelas dificuldades. Mesmo em um temperatura abaixo de zero, foi indescritível contemplar a vista dos picos nevados de El Chaten, na Argentina, afirma a radialista Luciana de Melo.
É por isso que sair da zona de conforto rumo a um destino desconhecido é muito diferente de comprar um pacote turístico, quando esperamos que se cumpram as promessas do agente de viagens. É preciso estar aberto às surpresas reservadas por outras culturas e também às dificuldades. O viajante que compreende a importância da diversidade cultural e questiona pressupostos e preconceitos da própria cultura retira continuamente o tapete de debaixo dos pés, diz o antropólogo Manuel Ramos. Essa quebra de certezas renova a vida.
O legadoQuando esteve há dez anos em Mali, um pobre país africano, a fotógrafa Valéria Mendonça, uma ruiva de pele muito alva, precisou lutar contra a própria timidez para poder interagir com os anfitriões. As crianças queriam me seguir e pegar nos meus cabelos quando eu andava pelas ruas, porque era diferente e despertava muita atenção, diz. Mas esse embaraço não impediu as belas lembranças. O cenário arenoso, o calor intenso, máquinas de costura a céu aberto, tecelões tomando chá sob as árvores despertam as boas recordações de Valéria. Mesmo sem ter o básico, como água e luz, vi muita gente feliz na África, afirma.
As diferenças culturais também ensinam a dar valor à nossa realidade. A jornalista Paula Carvalho, por exemplo, sentiu uma forte experiência ao se ver como a única mulher caminhando pelas ruas da cidade de Abbottad, próximo à capital do muçulmano Paquistão. As mulheres não saem de casa. Sua única chance de ter segurança financeira é casar-se e seguir as ordens do marido. Ao se despir de sua própria cultura para vestir túnica e véu, voltou superconfiante ao Brasil, mais disponível para aproveitar as oportunidades oferecidas por aqui. Em pouco tempo saiu da casa dos pais e arrumou um emprego.
As lições aprendidas pelo gerente comercial Roberto Pascoal, catarinense de Joinville, também foram ricas. Para reavaliar suas escolhas de vida, ele decidiu seguir a pé por 710 quilômetros do Caminho de Santiago, na Espanha. Na dura caminhada, seus pés sucumbiram logo nos primeiros dias. Roberto só conseguiu seguir adiante unindo três condições básicas: força física, solidariedade e bom senso. No começo, entusiasmado, cheguei a caminhar 30 quilômetros por dia. Mas antes de uma semana já não conseguia mais andar. O que mais me surpreendeu foi que houve quem interrompesse a peregrinação só para me ajudar, diz Roberto. O bom senso também o ensinou a ter mais calma e a não se afobar. Deliciou-se com paisagens, ouviu com atenção as histórias dos outros peregrinos, saboreou devagar seus almoços, até chegar a Santiago de Compostela, 30 dias depois. Avaliar, comparar, experimentar e se transformar. Essa é recompensa de quem se lança em viagens inusitadas e abertas pelo mundo.
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