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Pague menos, leve mais

O JORNALISTA ITALIANO MASSIMO GAGGI FALA DA NOVA CLASSE SOCIAL QUE DESEJA CONSUMIR CADA VEZ MAIS LUXO E QUALIDADE POR UM PREÇO MAIS BAIXO

texto Elisa Correa fotos Alcir N. da Silva

Foi-se o tempo em que se contavam nos dedos as viagens de avião. Ou em que móveis criados por designers só podiam ser vistos nas páginas das revistas ou em que os vestidos esvoaçantes das passarelas eram privilégio das lojas de alta costura. A sociedade de consumo democratizou-se. Hoje a passagem de Madri a Dublin custa 15 euros e o percurso entre móveis assinados e roupas de grife até as lojas populares está cada vez mais curto, pelo menos nos países desenvolvidos. Produtos e serviços antes acessíveis só às classes mais altas agora estão à disposição na Europa e Estados Unidos, e isso começa a ocorrer também nos países emergentes. A sociedade low cost, como está sendo chamada essa classe que quer sempre o melhor sem ter de pagar muito por isso, amplia-se cada vez mais. Porém, quais são as conseqüências sociais e ambientais desse consumo desenfreado? Quem responde é o jornalista italiano Massimo Gaggi, correspondente do jornal Corriere della Sera em Nova York, e seu parceiro Edoardo Narduzzi, autores do livro La Fine del Ceto Medio e la Nascita della Società Low Cost (“O fim da classe média e o nascimento da sociedade low cost”, ainda sem tradução para a língua portuguesa). Aqui, Gaggi fala das conseqüências dessa nova sociedade que bate à nossa porta.

A classe média está realmente morrendo? Por quê?São várias as razões. A classe média está saindo de cena porque não tem mais o papel político que tinha de conter os impulsos revolucionários da classe operária, e não está mais conseguindo se adaptar às mudanças impostas pela globalização. Nos últimos tempos, passamos de uma sociedade de produtores a uma sociedade de consumidores, onde a demanda é mais importante que a oferta, onde o consumidor tem o poder de influenciar e até de codeterminar aquilo que lhe é proposto. E a demanda, hoje, atingiu uma escala global: as empresas podem recuperar no Brasil ou na China as vendas que perderam na Alemanha ou na Itália. Ela também está se deslocando para os países emergentes, onde milhões de pessoas aumentaram consideravelmente sua capacidade de consumo. Mas devemos sempre lembrar que esse é um fenômeno ocidental. Muitos países, principalmente da Ásia, que só agora estão conhecendo a industrialização e o progresso econômico, nunca tiveram uma classe média como a européia.

E quando nasceu extamente a sociedade low cost?A sociedade low cost é formada pela “classe da massa”, uma classe que nasceu junto com o crescimento e o desenvolvimento econômico dos países emergentes e que agora está tomando o lugar da classe média. Isso começou a acontecer no último quarto do século passado e se acentuou a partir da segunda metade dos anos 90. A classe da massa, claro, é massificada, tem uma renda média-baixa, mas tem acesso a “pequenos luxos”, a bens e serviços antes inacessíveis e que agora são fornecidos pela indústria do low cost.

O que caracteriza a sociedade low cost?É uma sociedade com exigências de consumo crescente que são satisfeitas pelas marcas que produzem produtos de baixo custo. Marcas como Wal-Mart [rede americana de supermercados], Ryanair [companhia área irlandesa], Zara [rede espanhola de lojas de roupas], H&M [rede sueca de lojas de roupas], ao oferecer o maior desconto possível, souberam interpretar o desejo das pessoas de consumir mais e melhor, pagando sempre menos. Mas os consumidores low cost são “nômades”, estão dispostos a mudar de fornecedor atrás das melhores vantagens e benefícios. Estão interessados quase exclusivamente no binômio preço/praticidade de consumo e querem dividir o dinheiro que têm entre o maior número de bens e serviços. É uma sociedade que tem uma tendência natural ao consumismo, que tende a não reconhecer outros valores que não o baixo preço de um produto.

Por que você afirma que o nascimento da sociedade low cost é uma revolução democrática? 
Porque milhões de pessoas hoje têm acesso a bens e serviços que antes eram oferecidos somente às classes mais altas. Não é só o direito ao voto que faz democracia, mas também o acesso à formação, a possibilidade de viajar, de conhecer países e culturas diferentes. Mas é claro que a sociedade low cost corre muitos riscos, pode sofrer as conseqüências do impacto ambiental e, como não é politizada, também pode ser vítima do populismo demagógico.

Os hábitos de consumo da sociedade low cost podem ser uma ameaça ao meio ambiente?Sim, o excesso de consumismo e o crescimento cada vez maior do consumo fazem da sociedade low cost um sistema que tem um custo ambiental muito alto. Porque não são apenas os produtos que custam pouco, os serviços oferecidos pelas companhias aéreas e pelas empresas de correio aéreo de baixo custo fazem com que a circulação de pessoas e de mercadorias seja enorme, o que, é claro, causa grande impacto ambiental. A Fedex, por exemplo, possibilita que uma caixinha de bombons produzida do outro lado do mundo chegue à porta da sua casa em 24 horas. Tudo isso é uma loucura, um gasto de energia absurdo.

Os custos ambientais podem ser um freio ao crescimento desse modelo de sociedade?Os problemas ambientais podem, sim, mudar o cenário socioeconômico que está se formando, onde a China se transforma na “fábrica do mundo”. Mas esse é um fenômeno ainda muito recente. As empresas low cost faturam cada vez mais e é difícil imaginar que elas vão diminuir o ritmo por causa do meio ambiente. Vou dar um exemplo: entre 1998 e 2005, o tráfego da companhia área irlandesa Ryanair explodiu de 3,9 para 34 milhões de passageiros. Foi um sucesso tão grande que só no ano de 2004 foram criadas cerca de 60 novas companhias aéreas low cost. Mas, no futuro, talvez os problemas ambientais e de poluição, como aqueles que já estão condicionando seriamente a vida nas áreas industriais da China e da Índia, possam ser um dos freios ao desenvolvimento de serviços baratos.

O livro termina dizendo que a sociedade low cost é um modelo inacabado. Por quê?A sociedade low cost já é uma realidade evidente, consolidada, mas isso não quer dizer que ela seja uma forma de desenvolvimento “positivo” da sociedade. Se não existir um modo de canalizar as novas tendências para um fim positivo, o risco é cair no consumismo excessivo e, por exemplo, acontecer uma involução. Mas eu não estou condenando, acho que devemos reconhecer essa realidade para poder agir e administrar melhor esse processo.

LIVROLa Fine del Ceto Medio e la Nascita della Società Low Cost, Massimo Gaggi e Edoardo Narduzzi, Enaudi

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