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Junk food saudável

SALGADINHOS, HAMBÚRGUER, SORVETE... AGORA ESSAS DELICIOSAS TENTAÇÕES PODEM SER BEM MAIS NUTRITIVAS

texto Gustavo Prudente foto André Spinola e Castro

Você já ouviu a expressão junk food ou comida-porcaria? Em termos nutri cionais, ela se refere a alimentos ricos em calorias e gorduras saturadas e pobres em fibras e nutrientes, como vitaminas e sais minerais. Sem falar dos conservantes, aromatizantes e espessantes químicos que normalmente lhes são acrescidos. Enfim, é junk food boa parte da comida industrializada que a gente está habituado a consumir.

O problema da comida tipo junk food é que ela é bonita e apetitosa. Dá vontade de comer, e muito. Já a comida mais natural, se não for bem caprichada na apresentação e nos temperos, pode não agradar. Por isso mesmo é que a grande indústria e também pequenas empresas de alimentação e alguns restaurantes naturais resolveram apostar numa comida saudável com aspecto de junk food. Isto é, uma forma bem sacada de aliar o útil ao agradável.

O resultado você já pode ver na prateleira dos supermercados. Chip assado em vez de frito, snack (salgadinho) integral de queijo, nugget assado de soja, molho de tomate orgânico, milk-shake de soja em envelopes, hambúrguer de tofu pronto, patê de soja com azeitonas ou ervas e por aí vai. O próprio Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, sob orientação do professor José Alfredo Arêas, desenvolveu receitas de salgadinhos para a criançada levar no lanche que suprem a maioria das vitaminas de que elas precisam diariamente. A massa dos snacks, por exemplo, é feita com base no amaranto, rico cereal de origem andina. Os produtos só estão à espera de uma empresa que se disponha a fabricá-los e comercializá-los. No Nordeste, a Embrapa Tropical também pesquisa o hambúrguer e a casquinha de siri feitos com polpa de caju.

Parece, mas não é

O nutricionista George Guimarães, dono do restaurante Vegethus, em São Paulo, resolveu criar, há quatro anos, a Balada Junk Food Saudável. Vegetarianos e não-vegetarianos adoram a inovação das receitas desse evento gastronômico. Pois o problema não é comer um bolinho de proteínas com molho, alface e tomate entre duas fatias de pão com gergelim. O perigo é quando as proteínas vêm de uma carne gordurosa e cheia de toxinas, a alface e o tomate estão repletos de agrotóxicos, o molho é preparado com conservantes e aromatizantes artificiais e o pão, feito com farinha excessivamente refinada. Se a proteína for vegetal, as verduras orgânicas, o pão integral e o molho feito com ingredientes naturais, não há problema algum, diz George. Ainda mais se o san-duíche for uma delícia.

que não há grande diferença entre comer um sanduíche supercalórico feito com um hambúguer e almoçar um prato de arroz branco, feijão, carne seca frita e farinha. Tal como junk food de origem norte-americana, esse tipo mais nacional do gênero contribui igualmente para o surgimento da obesidade e da hipertensão. Da mesma forma, uma alimentaçãosaudável pode ter tanto uma aparência de comida da vovó como de comida de lanchonete. O importante é que ela possa nutrir o organismo sem prejudicar a saúde dos órgãos e vasos sanguíneos, diz Glaucia Padovan, nutricionista da Mundo Verde, rede de lojas onde são vendidos alguns exemplares de junk food saudável, como pipoca de canjica com sal marinho e doces de leite preparados à base de soja e sem açúcar.

Segundo um estudo realizado em 2001 pela Mintel, empresa de pesquisas dos Estados Unidos, pelo menos 14% dos americanos se alimentavam quase que exclusivamente em redes de comida rápida. E essa tendência é mundial. Os mais afetados por essa alimentação de má qualidade são as crianças e jovens. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 177 milhões de crianças em todo o mundo estão ameaçadas por doenças ligadas à obesidade. Há poucos meses, 50 grupos de defesa dos consumidores americanos se uniram pedindo a restrição do marketing de junk food direcionado ao público infantil.

Que tal transformar alimentos aparentemente pouco nutritivos misturando ingredientes saudáveis à receita?

Deliciosos e disfarçados
Outra opção é preparar a junk saudável em casa, como descobriu Jessica Seinfeld, mulher do comediante norte-americano Jerry Seinfeld. Cansada de tentar fazer com que seus filhos comessem frutas e verduras, certa vez ela misturou um purê de abóbora ao costumeiro macarrão da garotada. Todos se deliciaram, sem nem perceber a artimanha da mãe. A experiência levou a outras receitas, igualmente bem-sucedidas, e ela acabou lançando o livro Deliciosos e Disfarçados, em que ensina alguns truques para que pais transformem alimentos aparentemente pouco nutritivos, como panquecas e tortas, em saudáveis. E sem que seus filhos percebam.

exemplo é interessante porque revela que sempre se pode aumentar a qualidade da alimentação, independentemente da nossa cultura alimentar ou dos nossos filhos. E comer saudavelmente não é só empanturrar-se de biscoitinhos integrais e se esquecer de comer frutas, legumes e verduras. O corpo precisa de uma quantidade recomendada de nutrientes. Portanto, o termo certo é alimentação saudável, e não alimento saudável, de uma forma isolada, diz a nutricionista Glaucia Padovan. E há quem vá mais longe ainda. Para considerar um alimento saudável, deve-se analisar todo o ciclo do seu processo de produção, desde a semente, explica Gerhard Dannapel, diretor da Tofutura, indústria que produz hambúrgueres à base de soja e tofu.

Mantendo essas ressalvas em mente, nada nos impede de comer, sem culpa, um combinado de fibras, vitaminas e sais minerais com aparência de sanduíche de padaria ou salgado de botequim.

LIVROS
Deliciosos e Disfarçados, Jessica Seinfeld, Ediouro

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